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27.11.09

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O rosto dela apareceu entre as estantes da biblioteca, logo na divisão de administração pública e direito administrativo. Estava com uma expressão imutável. Fui tomada por uma sensação de curiosidade, já havia ouvido falar dessa mulher, mas o que ela fazia ali, logo na estante mais desprezada da faculdade? Aquela estante é a mais freqüentada por mim. Desde que ela chegou não consigo deixar de lhe passar os olhos, é como se eu tivesse que dividir a minha estante com ela.
No inicio permaneci apenas a encarando, obviamente, enviesada. Ter que ficar escondida lendo algo na biblioteca já é uma situação desconfortável, com aquele olhar penetrante me observando com uma leve curiosidade me deixava mais incomodada.
Resolvi observá-la também. Olhos grandes, claros e vivos; Uma boca fina e bem delineada; Cabelos cortados repicados, uma ousadia para sua idade; A combinação de mulher na minha frente, como uma loba, só que em preto-e-branco.
Comecei a me indagar se seus olhos são verdes ou azuis, mas não me importa, o fato é que ela está ali, vibrantemente monocromática.
Os poucos que passam por aquele ambiente também se sentem incomodados com a presença dela. Alguns passam meio intimidados em silêncio pela capa do livro, quase se escondendo entre seus Taylor, Drucker e Fayol.
Ela nos olha, estática e fria – estava presa para sempre em um livro – fico imaginando quantos anos teria ali. Que vontade eu tenho de perguntar sua idade – ali na contracapa datado de 1973 – e aguardar que a resposta venha por um caminho inimaginável pelo tempo, espaço de onde saiu.
A estante é de metal, sem nenhuma harmonia. Ela divide seu espaço com outros tantos livros empoeirados e mofados, mas desde que chegou aquele canto ficou mais denso, bonito e intrigante.
Não sei como esse livro pousou ali na biblioteca, alguém de certo deve ter o colocado ali sem querer…ou simplesmente alguém o colocou ali para me perturbar e achar que fosse divina sua obra, porém, está em outro mundo o qual não pertenço.
Esses dias perdi a vergonha e retirei-a da estante. Com meus dedos afastei uma leve camada de pó de sua foto, seus olhos pareciam brilhar como as estrelas que brotavam lá fora na janela. Tão presente e tão distante – está ali, mas não está. Enquanto segurava seu livro na mão, percorri os olhos pela estante tão conhecida – incrível como havia perdido a graça sem ela ali – existem outras fotos em outras capas, mas nenhuma com a emoção que aquela me passava. Fayol, Taylor, Drucker, Ford, Borda…todos mortos como Clarice, mas nenhum deles com a convicção que ela tinha e que estava nas minhas mãos.
Clarice Lispector estava nas minhas mãos, aguardando que fosse interrogada que eu lhe perguntasse se sentia as mesmas dúvidas minhas. Um delírio esperar que um livro falasse comigo. Passei ligeiramente os dedos pelas abas, abri o livro em uma página qualquer e disparei:
- Fala Clarice! Me explica o porquê dessa empatia tão profunda? O que você pode acrescentar na minha vida para eu saber que vai ser tudo diferente? É impossível te decifrar, ficar assim é como pedir para ser devorada.
A foto na capa mantinha-se sorrindo, mas agora eu não tinha mais medo dela: ela sabia que eu queria suas respostas, e as deu de cara na primeira página escolhida aleatoriamente.
- O que obviamente não presta, sempre me interessou muito.
Sorri com um ar quase que maldoso. Clarice dividia sua afirmação comigo. Sempre fui popular por adorar tudo aquilo que não me convém, nada daquilo que a sociedade acha bonito. Clarice prestaria? Se sim, porque me interessou tanto?
Foi o primeiro (dos outros tantos!) encontro com Clarice, talvez um sonho – tão transcendental quanto aqueles que fazia na minha cabeça quando era criança, tão improvável quanto falar com as paredes e esperar respostas, mas eu sentia Clarice.
Dali para frente ela se tornou mais um livro na empoeirada estante de administração e direito. Um livro tão comum quanto “Curso de concordata e falência”. A foto de Clarice ficará para sempre em minha memória, e eu sei que ela voltará para que eu possa novamente revê-la e discutir sobre o vazio humano que somos. Mas Clarice não está mais lá, naquele livro antigo – ela está dentro de mim, como um ente querido que se foi. Não é mais um enigma é um amor que surgiu daquelas páginas amareladas para enriquecer e mudar minha vida, afinal “…eu não caibo no estreito, só vivo nos extremos.”





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4 Comentários »


    1. December 4th, 2009 às 1:35 pm || Clique aqui para quotar o comentario

    Clarisse ou Clarice?
    Enfim, acho a Clarice Lispector uma ótima escritora. Dela só li o “Livro dos Prazeres”, mas tem vários trechos de textos conhecidos e lindos feitos por ela que eu amo.
    Bjitos!
    Lusinha seu último post foi: Amo você vózinha!




    2. December 5th, 2009 às 5:23 pm || Clique aqui para quotar o comentario

    A Clarice, realmente, é maravilhosa. Mas eua inda tenho que rebolar muito para conseguir chegar a entender a profundidade dela, se é que isso é possível.

    Saudades suas, querida!
    Amanda seu último post foi: Agora, musique isso.




    3. December 16th, 2009 às 5:00 pm || Clique aqui para quotar o comentario

    Amiga, que texto LINDO! Sério mesmo, adorei!
    E sabe, já li Clarice Lispector, ela me encantou, mas depois nunca mais peguei nenhum livro dela pra ler. E nem sei bem porquê…
    saudade!
    Um beijo
    Carolda seu último post foi: Dain bramage*




    4. December 17th, 2009 às 4:21 pm || Clique aqui para quotar o comentario

    Eu também me apaixonei por Clarice Lispector. Li, inicialmente, por obrigação. Mas depois me envolvi no livro, de tal maneira que me deixou querendo mais dessa mulher. Ela escreve do meu jeito. Não que eu escreva da mesma maneira que ela, mas ela escreve do jeito que eu penso. Fã dela!






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